quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ELOÍSA CARTONERA O PAPEL DA ARTE NO CONTEXTO SOCIAL E POLÍTICO

SÃO PAULO - 2010
Adriana Silva de Oliveira
Anelise Faria Costa
Cristina Maria Schiripa Gatti
Felipe Osmar Lopes
Fernando Gabriel Balcarce Klenquen
Jacqueline Kiyoko Mikaro de Oliveira
Marcelli Nascimento Martinez
Mariana Lopez Expósito Frederico
Samantha de Alcântara

Monografia apresentada no curso de especialização da disciplina Apreciação de obras de arte - Referências para mediações educativas do Centro Universitário Maria Antônia.

APRESENTAÇÃO

O objetivo desta monografia é descrever recursos para realização de uma mediação de obra de arte contemporânea. A obra selecionada é a capa do livro “Evita Vive” criada pelo movimento argentino Eloisa Cartonera. O processo de mediação seria realizado com alunos do 3º ano do ensino médio, alunos entre os 16 e 18 anos.

Projeto Eloísa Cartonera

Eloísa Cartonera é uma cooperativa cultural idealizada pelo escritor Washington Cucurto e pelo artista plástico Javier Barilaro, com um forte apelo social e comunitário, sem fins lucrativos. Fundado em março de 2003, o coletivo de artistas, escritores e catadores de papelão está sediado em Buenos Aires, mais precisamente no bairro de La Boca (anexo 1).
Na ocasião da inauguração da cooperativa, a Argentina vivia o difícil cotidiano pós-crise econômica de 2001. Muitas pessoas estavam nas ruas tentando descobrir novas formas de sobrevivência. A criação desse coletivo foi uma das formas encontrada. Surgia uma nova classe de pobreza urbana: a dos cartoneros, equivalente aos catadores de papel brasileiros.
A proposta editorial do grupo parte do pressuposto de que a cultura funciona como um mecanismo de inclusão para aqueles que, de diversas formas, foram excluídos da sociedade.
O miolo do livro é feito em uma impressora caseira na sede da editora e as capas são confeccionadas com o papelão comprado dos cartoneros.
O papelão vendido ao projeto vale cinco vezes mais que o valor usual.
No site da editora os participantes do projeto afirmam que são um grupo que se juntou para trabalhar de uma nova maneira, para aprender coisas com o trabalho, como o cooperativismo, a autogestão e o esforço para um bem comum.
A primeira obra publicada foi “Pendejo”, de Gabriela Bejerman. Atualmente a editora publica literatura de toda a América Latina. Do Brasil já publicaram os autores: Haroldo de Campos, Jorge Mautner, Antônio Miranda e Glauco Mattoso.
O projeto, conhecido e respeitado em vários países, participou da 27ª Bienal Internacional de São Paulo, reproduzindo aqui o projeto argentino. Dessa experiência nasceu Dulcineia Catadora, a cooperativa brasileira inspirada nos Cartoneros.
Eloísa Cartonera é um exemplo de que a arte pode integrar pessoas e criar meios de subsistência.
Cada atividade é artística e funcional ao mesmo tempo. A produção de livros é feita em público, o desafio é gerar trabalho genuíno baseado em vendas de livros. A venda, na mesma rua onde está situada a oficina, quase sempre resulta em ato performativo. Os livros também são vendidos em uma rede restrita de livrarias que aceitam comprar o material com antecedência. O preço deve ser mais barato para pessoas de qualquer nível econômico terem acesso à leitura e com isso o projeto se mantém.
Os colaboradores cortam e pintam o papelão em cores. Os livros selecionados são impressos ou copiados em papel. O título do volume e o nome do autor são pincelados com moldes sobre o livro.
Dos restos de papelão surgem assim não apenas livros coloridos, mas também empregos e integração. O produto final é literatura latino-americana entre uma capa e uma contracapa de papelão colorido.
As capas, assumidamente coloridas e divertidas, são pintadas à mão em todos os estilos imagináveis, tornando cada livro uma peça única.
Não há nenhuma regra de como pintar as capas dos livros. Cada um deve descobrir sua própria expressão artística.
Miriam La Osa, integrante do Eloisa ensina: “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorida melhor”.
A pobreza e o déficit material são muitas vezes uma deliberada opção estética. Estas capas descrevem exatamente o cenário em que nasceram. São, nesse sentido, cruelmente genuínas. O "mal pintado", o "tosco" e o "artesanal" são sensações defendidas pelas escolhas de cores primárias e os acabamentos pouco cuidados.
Qualquer livro pode ser montado e pintado por qualquer pessoa, não havendo capas melhores umas que outras. No Eloísa vale tudo e isso tem qualquer coisa de libertador. O que eles fazem, e isso têm de ser valorizado, é sensibilizar-nos a todos para o potencial de prolongamento de vida que possa ter qualquer material.
Eles se percebem como pessoas que se juntam para estarem umas com as outras, para aprender umas com as outras, para ganhar a vida. Sempre é referido pelos integrantes do projeto, o prazer de produzir e pintar livros e de conhecer pessoas novas.
Além disso, oferecem para todos, imagens maravilhosas de formas pelas quais o mundo poderia funcionar. Oferecem acesso e visibilidade a um fenômeno que não pode passar omisso: a realidade destes milhares de pessoas que vivem diariamente dos detritos e subprodutos da sociedade. Oferecem um exemplo inspirador de um projeto autônomo e sustentável e que ainda materializa-se em livros tornando-os verdadeiros símbolos do poder comunitário e colaborativo.
Com tudo isto, o resultado é um fascinante e vibrante ponto de encontro entre expressões artísticas, sistemas sociais e a vida em geral.
Ricardo Piglia, reconhecido autor argentino e um dos autores publicados pelo Eloisa disse: “Não se trata de fazer um culto à pobreza, mas sim de não se deixar intimidar por ela.”

MEDIAÇÃO DA IMAGEM DE “EVITA VIVE”

A mediação desse trabalho será realizada em duas etapas.
Definimos essa abordagem ao perceber que a proposta artística do coletivo portenho Eloísa Cartonera ultrapassa os limites das capas de seus livros.
O processo de criação, essencialmente coletivo, além da escolha dos materiais, da forma de organização do grupo e da relação com os catadores de papel, tambem é a arte do Eloísa Cartonera.
Metaforicamente, a capa do livro “Evita Vive” é apenas a ponta do iceberg que é o trabalho por trás dessa criação.
Sendo assim, propomos primeiramente uma mediação do material visual da obra (a capa do livro) e uma segunda, mais voltada para o processo de criação do coletivo Eloísa Cartonera.
Dessa forma acreditamos que a leitura, a interpretação deste trabalho, que é tão vivencial e processual, ganhará em profundidade.

PRIMEIRA ETAPA

Exposição da obra


Após a exposição será realizada mediação oralmente e em grupo.

1. Descreva o que você vê. (n1 descritivo)
2. Que linguagem artística é essa? Pintura, escultura, gravura, desenho? (N2 construtivo)
3. Como são as cores? São puras, misturadas? (n2 construtivo)
4. As cores facilitam ou dificultam a leitura do que está escrito? (n2 construtivo)
5. Como são as letras da obra? (n1 descritivo)
6. Qual é o tamanho das letras? (n1 descritivo)
7. Qual o tipo das letras? (n2 construtivo)
8. O que a variedade de letras e cores pode significar? (n4 interpretativo)
9. Há alinhamento na organização das palavras? (n2 construtivo)
10. O que esse texto pode dizer? (n4 interpretativo)
11. Existe uma preocupação com perspectiva? Como os elementos gráficos estão distribuídos no espaço? (n2 construtivo e n1 descritivo)
12. Porque uma parte do texto está de ponta cabeça? (n4 interpretativo)
13. Há diferença entre a figura e o fundo? (n2 construtivo)
14. Existe diferença entre as letras? Por quê? (n1 descritivo e n4 interpretativo)
15. Que materiais são usados neste trabalho? (n2 construtivo)
16. Esses materiais são usualmente utilizados em arte? (n2 construtivo)
17. Qual é o suporte dessa obra? (n2 construtivo)
18. Em que lugar e época esse trabalho foi produzido? (n3 classificatório)
19. Que sentimentos essa obra desperta em você? (n4 interpretativo)
20. Essa obra lembra-lhe algo? (n4 interpretativo)

Após a primeira mediação, será feita a contextualização, através de:
• Veiculação de imagens sobre o processo de produção dos livros do Eloísa Cartonera;
• Exposição do professor, acerca do Eloísa Cartonera, com o auxílio do computador (aplicativo Power Point);
• Vídeo do projeto Dulcinéia Catadora, incluindo depoimentos e breve histórico, com o objetivo de mostrar o desdobramento do coletivo Eloísa Cantonera em São Paulo.

SEGUNDA ETAPA

Após a contextualização, serão propostas novas perguntas:

1. Que material serve de suporte para o trabalho do Eloísa Cartonera (n2 construtivo)
2. Por que o coletivo Eloísa Cartonera utiliza papelões para realizar as capas dos livros? (n4 interpretativo)
3. Como acontece a escolha das obras a serem encapadas pelo grupo? (n4 interpretativo)
4. De que forma um trabalho como o do Eloísa Cartonera pode modificar a visão que temos dos catadores de papel? (n4 interpretativo)
5. Como os livros encapados do coletivo Eloísa Cartonera modificaram a forma de os catadores de papel verem a si mesmos e enxergarem seu próprio trabalho? (n4 interpretativo)
6. Qual é o valor de um exemplar único de um livro do Eloísa Cartonera? (n4 interpretativo)
7. Uma iniciativa como essa é apenas artística? (n4 interpretativo)
8. A arte pode mobilizar reflexões e modificações no modo de vida das pessoas? (n4 interpretativo)
9. Houve uma mudança na forma da comunidade local se relacionar com o trabalho e presença dos catadores de papel? (n4 interpretativo)

PROPOSTA DE ATIVIDADE DE RECRIAÇÃO – NÍVEL 5 DE MEDIAÇÃO

Como o trabalho do Eloisa Cartonera é bastante ligado à sua comunidade e tem um forte caráter de inclusão social, propomos como recriação um projeto de cunho bastante social, para que os educandos possam ter uma experiência também vivencial.

1. Levantamento das questões

Em sala de aula, de forma coletiva: listar as profissões da escola e sua respectiva importância. Verificar como os jovens encaram profissões normalmente julgadas pela sociedade como de menor valor, sem dignidade.
A seguir o professor mostraria duas fotos de trabalhadores (catadores de papel) para uma leitura de imagem.

Perguntas: Quem é este homem?
O que ele faz?
Por que você acha que ele tem essa profissão?

Discutir em grupo como a nossa sociedade (e a escola) encara esses trabalhadores, essas pessoas, muitas vezes “invisíveis” aos olhos da sociedade.
Refletir sobre quem são as pessoas “invisíveis” no ambiente da escola.

2. Pesquisa de campo

Listar os trabalhadores da escola “invisíveis” em sala de aula. Em grupos, os alunos teriam que descobrir mais informações sobre esses trabalhadores.
Em grupos: levantar dados para o dossiê (criar perguntas para uma entrevista, propostas de fotografia para dar visibilidade a essas pessoas).
Entrevista:
1) Quem é você?
- Nome:
- Idade:
- Naturalidade (se não for de São Paulo, por que veio para cá?):
- Estado Civil:
- Filhos:
- Escolaridade:
2) Há quanto tempo trabalha na instituição?
3) Por que trabalha nesta instituição?
4) O que faz?
5) Por que realiza este trabalho?
6) Gosta do que faz?
7) Gostaria de realizar outro trabalho? Qual?
8) Considera seu trabalho valorizado na instituição? Por quê?
9) Conte um fato ou história interessante que aconteceu durante sua experiência aqui na escola.

3. Confecção de livros à La Cartonera

A partir dos relatos das entrevistas, os alunos criariam contos, pequenas histórias recontadas. Os contos reescritos seriam reunidos em um livro encapado com papelão.

4. Visita à Dulcinéia Catadora, com trabalho de fotografia. Do espaço e das pessoas.

5. Criação: desnaturalizar o olhar

Como lançar luzes para o trabalho desses profissionais?
Criação de uma instalação com as fotos, trechos de depoimentos ampliados e colocados em painéis, exposição dos livros e objetos do trabalho desses profissionais “invisíveis”, tornados visíveis pela recriação no espaço. Por exemplo: um uniforme customizado pelos alunos, objetos dispostos de forma inusitada no espaço, etc.
O papelão poderia ser usado para a criação dos painéis da exposição e trechos das histórias lidas pelos alunos.
Os entrevistados seriam convidados de honra da exposição.

ANEXO 1

PORQUE O COLETIVO “ELOÍSA CARTONERA” ENCONTRA-SE NO BAIRRO LA BOCA

Por ser um bairro carregado de história e uma história tão peculiar, o “Eloísa Cartonera” não poderia instalar-se noutro bairro portenho que não fosse o La Boca.
Foi o primeiro porto de Buenos Aires. Por esse motivo, desde o início, foi uma região de marinheiros, comerciantes e imigrantes. Em sua maioria italiana, predominantemente genovesa, o bairro também abrigou gregos, iugoslavos e turcos.
Os habitantes do La Boca sempre foram ruidosos, divertidos e saudosos de sua terra natal. Eram trabalhadores e fraternais: formaram várias instituições de apoio comunitário. Também fundaram jornais e clubes.
Sensíveis à arte, foram muitos os cantores, músicos, poetas e artistas plásticos boquenses que se destacaram no cenário cultural argentino.

Puente de La Boca (1946)
Benito Quinquela

O terreno era baixo e alagadiço e por isso as casas eram de madeira. As cores diversas resultaram das sobras de tinta que os marinheiros traziam para suas casas. Como a quantidade de tinta era escassa para pintar a casa toda e não havia dinheiro para comprar mais tinta, cada gota era aproveitada e assim a janela era pintada de uma cor, a porta de outra e paredes de mais outras.
O artista Benito Quinquela Martín foi o que melhor traduziu a particularidade do La Boca em sua obra, utilizando-se de cores quase puras, de camadas densas e grandes pinceladas, revelando a espontaneidade e a franqueza do popular. Seu trabalho contribuiu para a instauração definitiva do colorido como marca da personalidade do bairro.

REFERÊNCIAS DE SITES E BIBLIOGRÁFICAS

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Disponível em: < http://www.edusp.com.br/cadleitura/cadleitura_0907_7.asp>.
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Disponível em: < http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3634457- EI6580,00-Eloisa+Cartoneira+criadores+diante+da+crise.html>. Acesso em
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PEREIRA, Jairo E. G. Coletores de esperança. Episódio Cultural. 06 dez.
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SEVERINO, Joaquim A. Metodologia do trabalho científico. 20. Ed.rev.e ampl. – São Paulo: Cortez, 1996.

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